Neste sábado, dia 25, os palestinos foram às urnas para participar de eleições locais que, pela primeira vez em vinte anos, incluíram a Faixa de Gaza. Este pleito serve como um termômetro do atual cenário político, em um momento no qual o governo de Israel manifesta a intenção de inviabilizar a formação de um futuro Estado palestino.
A Autoridade Palestina, que tem sua sede na Cisjordânia, expressou a expectativa de que a realização das eleições na cidade de Deir al-Balah, em Gaza, fortaleça sua reivindicação de autoridade sobre o território. A Autoridade Palestina foi expulsa de Gaza pelo Hamas no ano de 2007.
Apesar das dificuldades enfrentadas, alguns moradores de Gaza, que lutam diariamente para garantir suas necessidades básicas no enclave devastado, viram com otimismo a oportunidade de exercer o direito ao voto.
"Como palestino e filho da Faixa de Gaza, sinto orgulho de que, após esta guerra, o processo democrático esteja retornando", afirmou Mamdouh al-Bhaisi, eleitor de 52 anos, em uma seção eleitoral de Deir al-Balah.
Contudo, a participação popular se mostrou reduzida. Dados oficiais indicaram que apenas 22,7% dos eleitores compareceram em Deir al-Balah, enquanto na Cisjordânia o percentual foi de 53,44%. A contagem dos votos teve início imediatamente, com a expectativa de que os resultados sejam divulgados ainda neste sábado ou no domingo, conforme informado pelas autoridades.
Hani Al-Masri, analista político da Cisjordânia, interpretou a baixa adesão em Gaza como um reflexo da crise humanitária em curso. Para ele, a situação fez com que a votação perdesse prioridade para a população, que está mais focada na sobrevivência do que nos processos políticos. Na Cisjordânia, Al-Masri observou que a participação também foi afetada por um boicote de algumas facções políticas.
Durante seu voto em uma seção eleitoral na região de Al-Bireh, próxima a Ramallah, o presidente palestino Mahmoud Abbas declarou que, oportunamente, eleições serão estendidas a toda a Faixa de Gaza, assim que as condições permitirem.
"Gaza é parte inseparável do Estado da Palestina. Portanto, trabalhamos por todos os meios para garantir que as eleições ocorram em Deir al-Balah, a fim de afirmar a unidade das duas partes do país", disse ele.
Desde que o cessar-fogo entre o Hamas e Israel, mediado pelos Estados Unidos, entrou em vigor em outubro, as negociações lideradas pelos EUA têm avançado pouco na busca por um acordo que estabeleça a supervisão internacional de Gaza.
Os governos europeus e árabes manifestam amplo apoio ao eventual restabelecimento da governança da Autoridade Palestina em Gaza, bem como à criação de um Estado palestino independente. Este futuro Estado incluiria a Faixa de Gaza, Jerusalém Oriental e a Cisjordânia, onde a Autoridade Palestina já exerce um autogoverno limitado sob ocupação israelense.
Diplomatas ocidentais consideram que as eleições locais podem representar um passo importante em direção às primeiras eleições nacionais em quase duas décadas. Além disso, esperam que o processo impulsione reformas para aumentar a transparência e a responsabilização, iniciativas que, segundo a Autoridade Palestina, já estão em andamento.
"Esperamos que o procedimento realizado hoje seja coroado com eleições legislativas e presidenciais", expressou Munif Treish, um dos candidatos na Cisjordânia.
A votação deste sábado marca o primeiro pleito de qualquer natureza em Gaza desde 2006 e as primeiras eleições palestinas desde o início da guerra em Gaza, há mais de dois anos, desencadeada por um ataque transfronteiriço do Hamas a comunidades no sul de Israel. Na Cisjordânia, as últimas eleições municipais aconteceram há quatro anos.
A Autoridade Palestina tem enfrentado sérias dificuldades financeiras para honrar o pagamento de salários. Essa situação é agravada pela retenção, por parte de Israel, da receita tributária que arrecada em nome da Autoridade, o que intensifica os temores de um colapso econômico. Israel justifica a retenção desses fundos como um protesto contra os pagamentos de assistência social a prisioneiros e a familiares de indivíduos mortos por suas forças, alegando que tais repasses incentivam ataques.
Adicionalmente, o governo israelense tem tomado medidas para facilitar a aquisição de terras na Cisjordânia por colonos. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, reiterou publicamente: "Continuaremos a matar a ideia de um Estado palestino".
Em Deir al-Balah, que sofreu menos danos em comparação com outras cidades de Gaza desde o ataque de Israel em 2023, faixas exibindo listas de candidatos foram afixadas em diversos edifícios.
O comitê eleitoral palestino apontou a vasta destruição como um dos principais motivos que impediram a realização da votação no restante da Faixa de Gaza. Mais da metade do território é controlada por Israel, e a porção remanescente está sob domínio do Hamas.
Algumas facções palestinas optaram por boicotar as eleições em desaprovação ao pedido da Autoridade Palestina para que os candidatos apoiassem seus acordos, os quais incluem o reconhecimento do Estado de Israel. Embora o Hamas, que administra Gaza há quase duas décadas, não tenha formalmente indicado nenhum candidato, uma das listas apresentadas na eleição de Deir al-Balah foi percebida por moradores e analistas como alinhada ao grupo.
Analistas sugerem que o desempenho de candidatos associados ao grupo militante pode oferecer um indicativo de sua popularidade na região. A maioria dos candidatos, tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, concorre pelo Fatah, o principal movimento político por trás da Autoridade Palestina, ou como independentes.
O Hamas, por sua vez, garantiu que respeitará os resultados do pleito. Fontes palestinas informaram à agência Reuters, antes da votação, que policiais civis do grupo foram mobilizados para assegurar a proteção das seções eleitorais em Gaza.
O Comitê Central Eleitoral Palestino divulgou que mais de um milhão de palestinos, incluindo 70 mil residentes em Gaza, estavam aptos a participar da votação.