LogoJornal do Goiano

Peru tem 2º turno indefinido com disputa voto a voto na reta final

A cinco dias da eleição, Keiko Fujimori garante vaga, enquanto candidato de esquerda e ultraconservador disputam com margem mínima.

17/04/2026 às 22:58
Por: Redação

A eleição presidencial do Peru permanece sem definição, mesmo após cinco dias de apuração dos votos. O pleito, realizado no último domingo (17), contou com 35 candidatos à presidência, em um cenário de grande instabilidade política que levou o país a ter nove presidentes em apenas uma década.

 

A candidata de direita Keiko Fujimori, que obteve 17% dos votos, assegurou sua participação no segundo turno, agendado para o dia 7 de junho. Contudo, a identidade de seu adversário segue incerta, com os candidatos que ocupam o segundo e o terceiro lugares separados por uma margem inferior a 3 mil votos.

 

Roberto Sanchéz Palomino, candidato de esquerda e aliado do ex-presidente Pedro Castillo, acumula 12% dos votos. Logo atrás, com 11,9% dos votos válidos, está o ultraconservador Rafael Aliaga, conhecido por ser um admirador do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

 

Até o início da tarde desta sexta-feira, 93,3% das urnas peruanas haviam sido contabilizadas. O Peru é o quarto país mais populoso da América do Sul, com aproximadamente 34 milhões de habitantes, e compartilha uma fronteira de 2,9 mil quilômetros com o Brasil, a segunda maior do país.

 

De acordo com Gustavo Menon, professor de pós-graduação em Integração da América Latina na Universidade de São Paulo (USP), o resultado desta eleição tem implicações na rivalidade comercial entre China e Estados Unidos na América Latina.

 

Roberto Sánchez se opõem vertiginosamente à plataforma encampada por Keiko Fujimori, que pretende se realinhar com os EUA. Ela já fez acenos a Donald Trump no sentido de recrudescer a política migratória e estancar a influência chinesa que se dá, sobretudo, via Porto de Chancay.

 

Candidatura de Keiko Fujimori

 

Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, lidera a apuração com 2,6 milhões de votos entre os 27 milhões de eleitores aptos. Esta é a quarta vez que Keiko se candidata à presidência, tendo sido derrotada no segundo turno nas três eleições anteriores, em 2011, 2016 e 2021.

 

As repetidas derrotas de Keiko sugerem que ela enfrenta um limite de votos, possivelmente devido à resistência à herança política de seu pai, que foi condenado por violações de direitos humanos.

 

O antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em política latino-americana, ressalta a forte ligação de Keiko com o legado paterno.

 

Fujimori lembra no Peru da guerra contra o Sendero Luminoso, a reedição desse discurso antiterrorista, mas que, nas províncias, é associado às elites, ao neoliberalismo.

 

A Esquerda na Disputa

 

Roberto Sánchez, até o momento, totaliza 1,890 milhão de votos. Ele é uma figura próxima do ex-presidente Pedro Castillo, que foi deposto e preso sob a acusação de tentar um golpe de Estado ao dissolver o parlamento. Para seus apoiadores, Castillo foi uma vítima do poderoso parlamento peruano, por representar os interesses da população rural.

 

Salvador Schavelzon, da Unifesp, descreve o perfil de Sánchez como nacionalista-popular.

 

É um nacionalismo popular que reivindica a cor da pele, o chapéu, que são símbolos importantes de um setor político que vem chegando aos poucos, mas com muita resistência por parte das elites. Ele busca dar uma resposta às maiorias que trabalham na terra, do interior, e tem prometido algumas reformas.

 

Entre as propostas de governo de Sánchez, destacam-se a nacionalização de recursos naturais, a convocação de uma nova constituinte para reformar os poderes institucionais do Peru, e a ampliação de direitos trabalhistas.

 

Formado em psicologia, Sánchez foi ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo de Pedro Castillo, em 2021, e atua como deputado pelo partido Juntos Pelo Peru. Ele foi um dos entusiastas do projeto do Porto de Chancay, que recebeu expressivos investimentos chineses com o objetivo de facilitar o escoamento da produção para a Ásia.

 

Apesar de sua conexão com a população rural, Schavelzon adverte que Sánchez é um político experiente no sistema partidário do Congresso peruano.

 

Sanchéz vem dos jogos partidários, da velha política do Congresso, que acena para o povo, mas muitas vezes acaba sendo mais próximo das elites, talvez novas elites que se reposicionam. A gente viu isso em vários lugares da América Latina.

 

O Ultraconservador Rafael Aliaga

 

Roberto Sánchez disputa a segunda vaga no segundo turno com Rafael López Aliaga, um político autointitulado ultraconservador, que pode ser classificado como de extrema-direita, conforme a análise do professor Menon.

 

Schavelzon, que também leciona na Universidade Católica de Brasília (UCB), aponta que um segundo turno entre Keiko Fujimori e Rafael Aliaga fortaleceria a extrema-direita e promoveria um realinhamento com a Casa Branca, mesmo diante da interdependência comercial entre Peru e China.

 

Se o Peru tiver uma eleição em 2º turno entre Keiko Fujimori e Rafael Aliaga, quem sai fortalecido é o campo da extrema-direita. Haverá um realinhamento em direção à Casa Branca, a despeito dessa interdependência entre Peru e China do ponto de vista das relações comerciais.

 

Aliaga, ex-prefeito da capital Lima, é frequentemente comparado a figuras como Donald Trump ou o presidente argentino Javier Milei, devido à sua combinação de discurso ultraconservador e defesa radical do livre mercado.

 

Acusações de Fraude Eleitoral

 

O ultraconservador Rafael López Aliaga, do partido Revolução Popular, registrou 1,877 milhão de votos. Ele estava inicialmente em segundo lugar na apuração, mas foi ultrapassado pelo esquerdista Sánchez quando os votos das zonas rurais começaram a ser computados.

 

Diante da mudança no cenário, Aliaga passou a denunciar uma suposta fraude eleitoral, embora não tenha apresentado provas. A acusação foi prontamente rebatida por seu adversário.

 

O partido de Sánchez, Juntos Pelo Peru, emitiu uma nota oficial apelando à população por calma.

 

Fazemos um chamado firme ao nosso povo para manter a calma, a vigilância democrática e a confianças nos canais institucionais, esperando com responsabilidade os resultados oficiais.

 

Um comunicado preliminar da Missão da União Europeia, responsável por fiscalizar as eleições peruanas, não identificou indícios de fraude, apesar de ter registrado atrasos em 13 locais de votação na capital, Lima, afetando o direito de voto de 55 mil pessoas.

 

Desafios para a Governabilidade

 

Com um histórico recente de nove presidentes em dez anos, o Peru tem sido marcado por sucessivas renúncias e destituições. O professor Gustavo Menon analisa que, independentemente do vencedor, a governabilidade não estará assegurada.

 

Independentemente quem seja o novo presidente eleito, a vida com o parlamento peruano não será fácil frente a essa pulverização dos partidos e do sistema eleitoral. Para formar uma base de governo, o presidente eleito terá que fazer uma série de concessões.

 

Menon enfatiza que, apesar de o Peru possuir um regime presidencialista, é o parlamento quem, em grande parte, define as agendas de governo.

 

Histórico de Crise Política

 

Na eleição anterior, em 2021, Pedro Castillo, um professor rural de centro-esquerda, venceu Keiko Fujimori no segundo turno. Sua vitória foi considerada uma surpresa, pois Castillo não figurava entre os primeiros nas pesquisas de opinião da época.

 

No entanto, Castillo foi afastado e detido após tentar dissolver o Parlamento, sendo condenado em novembro de 2025 a mais de 11 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Para alguns de seus apoiadores, Castillo foi vítima de um golpe orquestrado pelo parlamento peruano.

 

Sua vice, Dina Boluarte, assumiu a presidência e reprimiu com violência as manifestações contra a destituição de Castillo, resultando na morte de 49 pessoas, conforme dados da Anistia Internacional. Com baixíssima aprovação popular, Boluarte foi destituída pelo Congresso em 10 de outubro de 2025.

 

Em seguida, assumiu o então presidente do Parlamento, José Jerí, cuja gestão foi breve. Em 17 de fevereiro do mesmo ano, o Congresso destituiu Jerí. O cargo foi então ocupado interinamente por José María Balcázar Zelada, eleito indiretamente pelo influente Parlamento peruano, que é frequentemente apontado como o verdadeiro poder no país andino.

© Copyright 2025 - Jornal do Goiano - Todos os direitos reservados