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Projeto investiga origem das tartarugas marinhas de Arraial do Cabo

Equipe monitora e realiza exames genéticos em tartarugas-verdes para identificar as populações presentes na reserva de Arraial do Cabo.

21/04/2026 às 16:24
Por: Redação

Em meio a uma tarde tranquila no mar da Praia do Pontal, na Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo, localizada na Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro, mergulhadores embarcados em um caiaque avançam cerca de 200 metros da faixa de areia para capturar tartarugas marinhas. A primeira tartaruga é retirada da água em poucos minutos e, logo depois, outra também é capturada. A atividade chama a atenção de pescadores e banhistas, que observam com curiosidade o processo, que não possui caráter predatório, mas sim de acompanhamento da saúde desses animais.

 

O monitoramento integra o Projeto Costão Rochoso, conduzido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, uma organização não governamental (ONG). A proposta principal do projeto é reunir dados científicos para promover a preservação e a recuperação dos costões, regiões de transição entre o mar e o continente. A iniciativa conta com o apoio da Petrobras e seu desafio central é desvendar a procedência das tartarugas que habitam Arraial do Cabo, área reconhecida por possuir a maior concentração nacional de tartarugas-verdes em áreas de alimentação no litoral brasileiro.

 

De acordo com Juliana Fonseca, bióloga e uma das fundadoras do projeto, todas as cinco espécies de tartarugas marinhas presentes no Brasil podem ser encontradas em Arraial do Cabo.

 

Procedimentos de triagem e exames

Após serem retiradas da água pelos mergulhadores, as tartarugas passam por uma série de exames na faixa de areia. Entre os procedimentos realizados estão a pesagem, medição e coleta de tecido, procedimento semelhante a uma biópsia, que tem como objetivo auxiliar na identificação da origem dos animais.

 

"Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora", afirma Juliana à Agência Brasil.


 

Com a identificação da proveniência dessas tartarugas, será possível compreender com mais precisão quais populações dependem da região de Arraial do Cabo. O entendimento sobre o vínculo entre as áreas de desova e de alimentação é fundamental para estratégias de conservação.

 

Segundo a bióloga, as tartarugas estudadas têm uma expectativa de vida de aproximadamente 75 anos e permanecem cerca de dez anos nas águas de Arraial do Cabo. Algumas delas podem passar até 25 anos nessa área antes de retornarem ao local de nascimento para reprodução.

 

Juliana explica que os animais chegam à costa fluminense ainda pequenos e ali se desenvolvem.

 

"São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos", descreve.


 

Monitoramento, identificação e análise genética

O projeto realiza o acompanhamento da saúde de tartarugas-verdes (Chelonia mydas) e tartarugas-pente em quatro pontos específicos: Praia dos Anjos, Praia Grande, Praia do Pontal e na Ilha de Cabo Frio, todas situadas dentro da reserva marinha. Os pesquisadores efetuam medições detalhadas, incluindo casco, nadadeiras, rabo e até as unhas das tartarugas.

 

"É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está", diz Juliana.


 

Além da coleta de dados biométricos, são utilizadas fotografias e softwares especializados para identificar individualmente cada animal. A identificação ocorre principalmente por meio do exame das placas presentes na cabeça das tartarugas, que apresentam formatos e tamanhos singulares, comparáveis a impressões digitais humanas.

 

Desde 2018, o projeto já catalogou aproximadamente 500 animais, dos quais 80 passaram por coleta de DNA. Esse material genético está sendo analisado em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e os resultados dessas análises são esperados para os próximos seis meses.

 

Relação com visitantes e impactos do turismo

No âmbito do Projeto Costão Rochoso, uma outra vertente de pesquisa busca determinar qual a distância mínima que as tartarugas toleram em relação à aproximação humana.

 

"As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais", relata uma das mergulhadoras.


 

A metodologia empregada consiste em simular aproximações progressivas, observando o momento exato em que a tartaruga demonstra mudança de comportamento. O objetivo é estabelecer uma média segura de proximidade. Com base nesses dados, será elaborada uma cartilha de boas práticas para a observação de tartarugas marinhas, a ser utilizada não apenas em Arraial do Cabo, mas também em outras regiões turísticas do Brasil e internacionalmente.

 

Durante as atividades de pesagem, medição e coleta de tecido, é comum que banhistas, inclusive crianças, se aproximem para observar o trabalho dos pesquisadores. Em uma dessas ocasiões, um turista questionou: "Está doente?". Os membros do projeto então esclarecem aos curiosos que o procedimento tem finalidade de conservação. No calçadão da Praia do Pontal, uma placa informa explicitamente a proibição de tocar em animais marinhos.

 

Exigências técnicas e autorizações

Isabella Ferreira, bióloga e pesquisadora, explica que apenas profissionais com formação em áreas como biologia, veterinária ou oceanografia podem realizar a captura das tartarugas para esses estudos.

 

Para a execução do trabalho, são exigidas autorizações específicas do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e do Projeto Tamar, reconhecido internacionalmente como referência em conservação marinha desde 1980.

 

Isabella ressalta que toda a operação, desde a captura, marcação e fotografia dos animais, é submetida à aprovação dos órgãos responsáveis. Cada ida à praia para a realização dos procedimentos é comunicada previamente aos guardas ambientais, juntamente com a apresentação da documentação de autorização.

 

Reportagem acompanhou o trabalho do Projeto Costão Rochoso a convite da Petrobras, parceira da iniciativa.

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