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Proposta para encerrar escala 6x1 destaca busca por descanso e tempo com a família

Trabalhadores relatam desafios da jornada 6x1 e defendem direito a dois dias de folga semanal

01/05/2026 às 22:05
Por: Redação

Em diversos setores no Brasil, trabalhadores que atuam sob a escala semanal de seis dias consecutivos de serviço com apenas um dia de folga relatam dificuldades em conciliar obrigações domésticas, lazer e descanso adequado. Muitas dessas pessoas vislumbram a possibilidade de mudanças caso a legislação do trabalho passe a garantir dois dias livres por semana, expectativa que tem gerado debates e mobilizações.

 

O tema ganhou centralidade nas recentes manifestações do Dia do Trabalhador, em 1º de maio, nas quais a reivindicação pelo fim da escala 6x1 figurou como pauta prioritária dos participantes. Atualmente, propostas relacionadas ao assunto tramitam no Congresso Nacional, refletindo a relevância do debate no cenário político.

 

No Rio de Janeiro, a balconista de farmácia Darlen da Silva, com 38 anos e 15 anos de experiência profissional sob o regime 6x1, relata as consequências desse modelo em sua rotina. Ela menciona que o único dia de descanso é consumido por tarefas domésticas e necessidades cotidianas, impossibilitando o repouso efetivo.

 

“Tenho duas filhas, então para mim é muito corrida a minha folga. Tenho que fazer tudo dentro de casa, lavar roupa, fazer mercado. Não tenho descanso. Venho trabalhar mais cansada ainda no outro dia.”

 

Segundo ela, entre os colegas de trabalho, a expectativa por uma possível mudança é tema recorrente nas conversas diárias. Darlen planeja destinar um dos dias de folga, caso a proposta avance, para cumprir tarefas domésticas e o outro para descanso e lazer, a fim de equilibrar suas múltiplas responsabilidades.

 

Darlen pontua, porém, que é fundamental garantir que a futura legislação seja respeitada em sua totalidade – especialmente no que diz respeito ao teto de 40 horas semanais. Ela alerta para situações em que empresas já adotaram dois dias de folga, mas, em contrapartida, aumentaram a carga horária diária dos funcionários.

 

“Meus colegas estão trabalhando 11 horas por dia para poder entrar nesse esquema de cinco por dois. Entendeu? Então, acaba que não compensa. Para mim, não compensa. Se você trabalhar 11 horas cinco dias na semana, você vai ficar mais cansado ainda”.

 

Impacto do segundo dia livre na vida familiar

 

O garçom Alisson dos Santos, de 33 anos, também residente no Rio de Janeiro e há uma década empregado no setor de restaurantes, compartilha experiência semelhante. Ele afirma que utiliza a folga semanal principalmente para resolver pendências pessoais e dos filhos, como consultas médicas e compromissos escolares.

 

“A gente sempre tem que resolver alguma coisa da criança na escola, tem médico, sempre tem alguma coisinha para você fazer. Então, acaba não rendendo o seu dia de descanso. Sempre tem que fazer as coisas de casa.”

 

Alisson acredita que um segundo dia livre possibilitaria não apenas executar tarefas domésticas, mas também aproveitar tempo de lazer com a família ou até planejar viagens curtas, algo inviável atualmente.

 

“Num dia você organiza as coisas de casa e, no outro dia, consegue passear com a família. Ou, se você vai direto do trabalho, consegue organizar até uma viagem. Com um dia só não, você não consegue fazer nada.”

 

Em São Luís, Maranhão, Izabelle Nunes, cabeleireira de 26 anos, declara apoiar a proposta, mesmo não acompanhando detalhadamente as discussões no Congresso e sem notar amplo debate sobre o tema em seu local de trabalho.

 

“Acho que todos nós trabalhadores temos o direito de ter no mínimo dois dias de folga. Cuidar dos nossos estudos, saúde, lazer, cultura e trabalhando nessa escala a gente só se acaba.”

 

Izabelle acredita que o acréscimo de um dia de folga semanal traria benefícios significativos para a dinâmica familiar, permitindo maior convivência com familiares e mais tempo para resolver questões pessoais.

 

Karine Fernandes, professora de 36 anos que acompanha as discussões pelas redes sociais, não atua sob o regime 6x1, mas avalia que a alteração na legislação tem relevância direta na qualidade de vida de trabalhadores e suas famílias.

 

“Acredito ser uma discussão importante, que afeta significativamente a qualidade de vida de muitos trabalhadores.”

 

Karine destaca ainda o efeito da proposta na rotina de crianças, que passariam a conviver mais tempo com pais e mães, contribuindo para o desenvolvimento familiar.

 

“Como mãe, penso em como isso influencia a vivência de crianças que podem ter mais tempo de qualidade com suas mães e pais e como isso tem resultado direto no fortalecimento dos adultos que irão se tornar.”

 

Propostas em tramitação para alterar a jornada semanal

 

A discussão sobre a extinção do regime 6x1 faz parte da agenda trabalhista do governo federal, com projetos já em análise no Congresso Nacional. Dentre as propostas em debate, está a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/19, apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes, do Partido dos Trabalhadores de Minas Gerais, que prevê a redução gradual da carga semanal de trabalho de 44 para 36 horas, em um processo de transição com duração de dez anos.

 

Outra proposta anexada ao debate é a PEC 8/25, da deputada Erika Hilton, do Partido Socialismo e Liberdade de São Paulo, que propõe a adoção de uma escala de quatro dias de trabalho a cada semana, com um limite total de 36 horas para o período.

 

Além dessas iniciativas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou ao Congresso, em regime de urgência constitucional, um projeto de lei que visa abolir a escala 6x1 e estabelecer o teto de 40 horas semanais na jornada dos trabalhadores. Pelas regras regimentais, esse projeto deve ser votado em até 45 dias, sob pena de interromper a tramitação de outras matérias no plenário da Câmara dos Deputados.

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