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Orquestra Juvenil Chiquinha Gonzaga do Rio inicia turnê com audiência papal na Itália

O grupo de 52 instrumentistas, estudantes da rede pública, visitará importantes instituições europeias e celebrará o Bicentenário das Relações Brasil-Santa Sé.

23/04/2026 às 15:37
Por: Redação

A Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga, composta por jovens instrumentistas de 13 a 21 anos, todas alunas da rede pública de ensino do Rio de Janeiro, embarca nesta sexta-feira (24) para uma turnê na Itália. O grupo, criado em 2021, tem como objetivo principal ampliar a representatividade feminina no universo da música orquestral.

 

A escolha do nome Chiquinha Gonzaga para a orquestra não foi aleatória, mas sim uma decisão consciente para simbolizar a luta, a liberdade e o protagonismo feminino. Chiquinha Gonzaga, a primeira maestrina do Brasil, é uma inspiração para as 52 instrumentistas que formam o conjunto exclusivamente feminino.

 

“Foi uma escolha muito consciente e carregada de significado. Chiquinha foi uma mulher à frente do seu tempo, que rompeu barreiras em uma sociedade extremamente restritiva para as mulheres. Ela foi compositora, maestra, ativista, uma mulher que lutou por autonomia e liberdade”

Assim declarou a diretora executiva da Orquestra e pianista, Moana Martins, em mensagem à Agência Brasil. Moana acrescentou que a referência ao nome da maestrina conecta as jovens à coragem e à capacidade de realização, transmitindo a mensagem de que “vocês também podem transformar a história”.

 

A orquestra completará cinco anos de existência em 2026. A flautista Nathaly Joyce, de 21 anos, residente de Tomás Coelho, na zona norte da capital fluminense, faz parte do projeto desde sua criação, tendo ingressado por meio de uma audição. Ela descreve que, durante as apresentações, um “filme” de sua trajetória passa em sua mente.

 

“Desde de quando a gente tinha dificuldade em uma música e por conta de estudos e motivação, não só de professores e maestros, mas da própria orquestra, a gente ali se apoiando. É lindo ver o companheirismo e a aliança através da música”

Nathaly expressou à Agência Brasil, sentindo-se afortunada e privilegiada pelo apoio incondicional de sua família, que a encoraja em sua carreira musical. A jovem, que já considera a música sua profissão, tem planos ambiciosos para o futuro.

 

“Estou me formando em faculdade de música e penso futuramente continuar na área musical e em outras áreas como regência e fazer mestrado e doutorado”

 

Agenda da Turnê na Itália

 

A programação da orquestra na Itália é extensa, estendendo-se entre os dias 23 de abril e 1º de maio. Um dos pontos altos será a audiência com o Papa Leão XIV, marcada para o dia 29 de abril, na Praça São Pedro, no Vaticano. Além disso, o grupo realizará outras atividades em diversos espaços culturais de Roma.

 

A turnê, denominada “Conexão Vaticano”, insere-se nas celebrações do Bicentenário das Relações Diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé. As integrantes da orquestra, carinhosamente chamadas de “Chiquinhas”, participarão de intercâmbios acadêmicos com renomadas instituições de música europeias, como a Sapienza Università di Roma e a Accademia de Santa Cecilia.

 

Estão previstas apresentações no Cinema Troisi, na Sapienza Università di Roma e na Embaixada do Brasil em Roma, onde o grupo fará o encerramento da mostra audiovisual de cinema brasileiro, também parte das comemorações do Bicentenário das Relações Diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé.

 

Para a violinista Clarysse Amaral, de 21 anos, moradora de São Cristóvão, na zona norte do Rio de Janeiro, a oportunidade de se apresentar ao Papa é uma experiência inigualável. “Não tem nem como comparar com outra coisa. Eu vejo como importante e acho que é um feito histórico, sinceramente”, disse Clarysse em áudio de WhatsApp para a Agência Brasil.

 

Clarysse também destacou o suporte familiar em sua trajetória. “Graças a Deus estão sempre comigo e muito felizes com as minhas conquistas tanto na Chiquinha como na música em si. Sou muito grata a eles”, comentou a jovem.

 

Repertório e Liderança

 

O concerto da Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga homenageará importantes compositores da música brasileira, incluindo Carlos Gomes, Guerra-Peixe, Baden Powell, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan e Chico Buarque. A cantora Flor Gil, neta de Gilberto Gil, fará uma participação especial em algumas apresentações.

 

O programa inclui, ainda, a execução de uma obra inédita da compositora brasileira Ágatha Lima, que reside na Itália e foi vencedora de uma chamada pública organizada pelo projeto. A regência da Orquestra, que normalmente é de Priscila Bomfim, ficará a cargo de Ludhymila Bruzzi durante a turnê, uma vez que Priscila não pôde viajar.

 

Ludhymila Bruzzi expressou sua alegria e o aprendizado contínuo ao trabalhar com as jovens da OSJ Chiquinha Gonzaga, um trabalho que, segundo ela, vai além da música. “É sobre criar laços, cultivar a confiança, e principalmente a autoconfiança delas em relação ao ofício de ser musicista, em um meio ainda tão dominado pelos homens”, afirmou à Agência Brasil.

 

“O fato da orquestra ser só de meninas, mulheres pesa muito para que a mudança seja cada vez mais rápida e presente no meio musical. Existe um senso de união e representatividade muito vivo entre elas, fazendo com que tenham a certeza que podem e devem estar ali e em qualquer outro grupo ou palco pelo mundo”

A turnê “Conexão Vaticano” é apoiada pelo Ministério das Relações Exteriores, através da Embaixada do Brasil junto à Santa Sé, da Embaixada do Brasil em Roma e do Instituto Guimarães Rosa. O patrocínio é da Zurich Santander, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. A Petrogal Brasil, Joint Venture Galp|Sinopec, é a patrocinadora master da Orquestra, apoiando o desenvolvimento do projeto durante todo o ano, também com a utilização da referida legislação.

 

Esta viagem à Itália representa a sexta turnê internacional da OSJ Chiquinha Gonzaga. Em 2025, o grupo, com a participação de Flor Gil, se apresentou no Carnegie Hall, em Nova York, Estados Unidos, e no Festival Nos Alive, em Oeiras, Portugal. Em 2024, a orquestra esteve em Bordeaux, na França, e em 2023, em cidades da Suíça. No ano anterior, as “Chiquinhas” realizaram apresentações em Portugal e na Espanha. Dos 52 jovens instrumentistas, 27 participam da atual turnê “Conexão Vaticano”.

 

Impacto Social e Acadêmico

 

A diretora executiva, Moana Martins, ressaltou que manter um projeto dessa envergadura, que abrange um vasto ecossistema social desde os polos de ensino até ações de formação profissional, não é uma tarefa simples. “O que nos faz seguir em frente com firmeza é o propósito”, declarou.

 

“Sou muito feliz por acompanhar o crescimento de cada Chiquinha. Elas começam ainda tímidas, encontrando o seu som e não demora muito, a transformação acontece. As meninas vão ocupando seus espaços nos teatros, nas universidades, protagonizando histórias lindas e realizando seus sonhos e de suas famílias”

Moana também destacou o impacto tangível do projeto nas famílias e nas comunidades. Ela observou mudanças evidentes no desempenho escolar das alunas, em seu comportamento e na maneira como se posicionam no mundo. As jovens se tornam referências em suas casas, inspiram irmãos, fortalecem laços familiares e abrem novas oportunidades em contextos que frequentemente apresentam limitações de acesso.

 

A orquestra, segundo Moana, funciona como um agente de mobilidade social e de transformação simbólica, ampliando horizontes. “No fim das contas, o que sustenta a Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga é o sentido”, concluiu.

 

Para celebrar seus cinco anos de história, a Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga lançou um selo comemorativo, que simboliza não apenas o aniversário, mas também a trajetória construída com dedicação, formação artística e impacto social.

 

Um dos pilares do programa da OSJ Chiquinha Gonzaga é o rigor acadêmico. Somente as alunas que alcançam os melhores resultados escolares são selecionadas para participar dos intercâmbios internacionais. Como resultado direto dessa política, o Relatório de Impacto 2025 da orquestra indicou um desempenho 96,6% superior em comparação à média dos estudantes da rede estadual do Rio de Janeiro.

 

Além dos êxitos acadêmicos, o projeto também evidencia uma profunda mudança na mentalidade das alunas. Muitas delas são as primeiras em suas famílias a ingressar na universidade e a desenvolver projetos de vida mais ambiciosos e sustentáveis, demonstrando o poder transformador da música.

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