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Senegal busca liderança internacional em fórum sobre segurança na África

Evento internacional reúne chefes de Estado e fortalece laços com Brasil e países do Sul Global

21/04/2026 às 21:13
Por: Redação

Com aproximadamente quatro milhões de habitantes em sua região metropolitana, Dacar, capital do Senegal, é o ponto do continente africano mais próximo das Américas, estando a uma distância de 2,9 mil quilômetros do Brasil. Nesta cidade, foi realizado o 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, um evento de dois dias que se encerrou em 21 de abril de 2026.

 

O fórum contou com a presença de chefes de Estado e representantes de 38 nações, incluindo 18 países africanos, além de delegados de dez organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas e a União Europeia. O Brasil foi representado pela embaixadora no Senegal, Daniella Xavier.

 

Durante a cerimônia de abertura, o presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, destacou a capital senegalesa como um centro para o diálogo estratégico tanto africano quanto internacional.

 

“Um espaço de reflexão e troca sobre caminhos para desenvolver soluções endógenas [internas] para os desafios de segurança do continente”, discursou.

 

O evento teve como objetivo discutir dificuldades, debater questões e sugerir estratégias para enfrentar os desafios africanos, além de promover o papel de destaque do Senegal na região, visto como um dos países mais estáveis do continente.

 

Com quase 19 milhões de habitantes, o Senegal pretende ampliar sua influência em nível internacional, principalmente em cooperação com outras regiões do planeta, como o Sul Global, grupo ao qual o Brasil também procura se fortalecer, segundo especialistas em relações internacionais.

 

Estabilidade e tradição pacífica

 

O chefe do Escritório da ONU para a África Ocidental e Sahel, Leonardo Santos Simão, ressaltou que o Senegal tem uma trajetória marcada por estabilidade e desenvolvimento pacífico, sem registro de golpes de Estado.

 

O diplomata de Moçambique pontuou que a África, atualmente, enfrenta situações complexas devido a conflitos internos e regionais, terrorismo e crime organizado.

 

O Sahel, região continental que separa o deserto do Saara das savanas ao sul, é considerado um dos principais focos do terrorismo internacional, sendo ameaçado por grupos jihadistas como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico.

 

De acordo com o Índice de Terrorismo Global de 2026, mais da metade das mortes causadas por terrorismo em 2025 ocorreram nessa região, principalmente em Mali, Burkina Faso e Níger. Outros países do Sahel incluem Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Chade, Camarões e Nigéria.

 

Segundo Leonardo Santos Simão:

 

“Senegal, através deste diálogo regular, oferece justamente esse espaço de troca de ideias, de troca de opiniões sobre como enfrentar, na prática, esses desafios do nosso tempo”.

 

O diplomata também destacou que representantes de países de fora da África participam das discussões promovidas pelo fórum.

 

Aliança entre países em desenvolvimento

 

O representante da ONU ressaltou que o Senegal integra o grupo internacional conhecido como Sul Global, defendido também pelo Brasil, formado por nações em desenvolvimento com desafios sociais semelhantes.

 

Simão destacou que esse agrupamento proporciona um fórum de diálogo interno para identificar desafios comuns e também para estabelecer comunicação entre o Sul Global e o Norte Global, formado por países ricos.

 

“Este Sul está cada vez mais unido”, disse. “Senegal é parte desse esforço também. Está no mesmo diapasão que o Brasil e outros países do Sul no trazer desta voz do Sul Global para que sejam encontradas soluções para os problemas da pobreza e da exclusão”, sustentou.

 

Ele também afirmou que a soberania das nações africanas se torna uma prioridade para o continente e que os países desenvolvidos precisam compreender que as relações do passado não são mais aceitas e devem ser revistas.

 

Delegações de países europeus com histórico colonial, como Alemanha, Espanha, Portugal e França – que colonizou o Senegal até 1960 – também marcaram presença no encontro.

 

Influência diplomática e desafios estratégicos

 

Carlos Lucas Mamboza, professor moçambicano especialista em Estudos Estratégicos, Segurança e Defesa, definiu o fórum como uma forma clara de exercício do soft power, expressão que, no contexto diplomático, significa a capacidade de influenciar relações internacionais por atração e persuasão, e não pelo uso da força militar.

 

Segundo ele, o Senegal busca projetar a imagem de um Estado estável, com instituições fortes e apto a mediar conflitos tanto no Sahel quanto em todo o continente africano.

 

O tema da edição de 2026 foi “África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?”. Para Mamboza, que também atua como professor de África nas Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense, essa temática deixa evidente o dilema enfrentado pelos países africanos.

 

“É a necessidade de equilibrar uma estabilidade interna, os processos de integração regional e a preservação da soberania em um cenário internacional marcado por uma intensa competição entre as grandes potências, nomeadamente China, a Rússia e os Estados Unidos”.

 

O especialista destacou que a programação do fórum abrangeu questões como mudanças climáticas, pandemias, criminalidade transnacional, cibersegurança e temas ligados à tecnologia, indicando a busca do continente por autonomia na definição de prioridades estratégicas.

 

Conexão com a América do Sul

 

Carlos Lucas Mamboza também enfatizou a aproximação diplomática do Senegal com a América do Sul e o Brasil. O Senegal integra a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), aliança formada por mais de 20 países, majoritariamente africanos, dedicada a manter a região sul do Atlântico livre de conflitos armados e disputas geopolíticas.

 

Recentemente, o Brasil assumiu a presidência dessa aliança em uma cerimônia no Rio de Janeiro.

 

“Senegal emerge como um elo importante entre a África Ocidental e o espaço estratégico do Atlântico Sul, conectando-se diretamente com os interesses do Brasil”.

 

O professor classificou essa relação como cooperação Sul-Sul e citou como exemplo os interesses compartilhados na defesa de reformas na governança global, especialmente no Conselho de Segurança da ONU, demanda antiga tanto do Brasil quanto de países africanos.

 

Atualmente, apenas Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França ocupam assentos permanentes e têm poder de veto no Conselho de Segurança, não havendo nenhum representante da América do Sul ou da África. Cabe a esse órgão impor sanções internacionais e autorizar intervenções militares.

 

Reconhecimento internacional e recursos estratégicos

 

A delegação dos Estados Unidos reconheceu o papel de destaque buscado pelo Senegal, como relatado por Richard Michaels, subsecretário adjunto do Departamento de Estado dos EUA.

 

“A liderança do Senegal em questões de segurança regional demonstra o impacto transformador que os países africanos podem alcançar quando traçam seu próprio caminho rumo ao sucesso”, afirmou.

 

Ele acrescentou que os Estados Unidos apoiam uma nova etapa de liderança africana, na qual atores nacionais e regionais assumem protagonismo no enfrentamento dos desafios econômicos, de segurança e políticos do continente.

 

Segundo Michaels, os Estados Unidos estão promovendo uma redefinição fundamental na relação com países africanos, agora baseada em comércio com vantagens mútuas, e não mais em assistência e dependência.

 

O representante norte-americano também destacou o interesse dos EUA em integrar a cadeia de produção dos chamados minerais críticos, vitais para tecnologias modernas, defesa e transição energética.

 

“África é o epicentro da corrida global por minerais críticos”, definiu.

 

Ele afirmou que há esforços conjuntos com parceiros africanos para desenvolver cadeias de suprimento seguras, transparentes e comercialmente viáveis, visando garantir que os países africanos obtenham mais valor de seus próprios recursos naturais.

 

O repórter participou da viagem a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.

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