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Empresários que financiaram ditadura têm origem em famílias escravocratas

Investigação revela que 2 em cada 3 empresários apoiadores do regime militar têm antepassados ligados à escravidão

28/04/2026 às 00:35
Por: Redação

Uma investigação detalhada revelou que pelo menos dois terços dos empresários citados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) como apoiadores do regime militar brasileiro descendem de famílias envolvidas com a escravidão. Das 62 figuras empresariais identificadas no relatório e que tiveram suas genealogias reconstruídas, 40 possuem ascendência ligada à posse de escravos.

 

O relatório final da CNV, no capítulo dedicado à participação civil no regime, apresenta uma lista de empresas que contribuíram para o funcionamento da ditadura por meio de financiamentos realizados de diferentes formas. Nomes tradicionais do empresariado nacional, como as famílias Guinle de Paula Machado, Batista Figueiredo, Beltrão e Vidigal, aparecem entre os apoiadores. A família Guinle de Paula Machado já controlou o Porto de Santos; a família Batista Figueiredo, além do último presidente militar, teve também o vice-presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo; os Beltrão, de Pernambuco, tiveram Hélio Beltrão como executivo do Grupo Ultra e ministro do Planejamento de Costa e Silva; os Vidigal comandavam o Banco Mercantil e a Cobrasma, companhia de materiais ferroviários.

 

A pesquisa que fundamenta esses dados utilizou certidões de nascimento, atestados de óbito, registros de batismo e outros documentos disponibilizados em plataformas de genealogia, como o Family Search. O levantamento foi conduzido para o episódio "Como Nossos Pais", do podcast "Perdas e Danos", que detalha o apoio do setor empresarial à ditadura militar.

 

Segundo Ricardo Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses, o núcleo da elite econômica e política brasileira mantém vínculos desde a era colonial.

 

“Quando a gente volta algumas gerações, às vezes um avô ou bisavô, de quem nasceu em 1950, você já está no senhoriato escravista das suas regiões”, relata.

 

Foram considerados apenas os empresários cujas linhagens puderam ser comprovadas. Entre os documentos analisados, constam registros de nomes conhecidos por participações expressivas no cenário econômico e político durante a ditadura.

 

Herança econômica e extração

O professor Edson Teles, especialista em filosofia política e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Unifesp, aponta que a economia da ditadura era fundamentada no verbo "extrair". Ele relaciona essa dinâmica ao modelo escravocrata tradicional, indicando que a extração de riquezas não se restringia apenas aos recursos naturais, mas também aos próprios trabalhadores.

 

“Extrair é o verbo fundamental do modelo econômico da ditadura. Extrair como ação fundamental e, por muitas vezes, quase que exclusiva.”

 

Teles ressalta o paralelo entre o uso dos corpos dos trabalhadores, sem respeito aos direitos e à dignidade, o que configura trabalho análogo à escravidão, violações diretas de direitos e práticas de violência. Ele liderou o estudo nacional mais amplo sobre as relações entre empresas, nacionais e estrangeiras, e o regime militar. Para ele, a aliança entre poder econômico e opressão tinha como alvo a classe trabalhadora.

 

“A relação mais íntima entre empresas e ditadura se deu justamente no ataque à organização dos trabalhadores. Logo que se deu o golpe, no mês de abril de 1964, 20 mil pessoas foram presas em um mês. É muita coisa. A grande maioria, trabalhadores sindicalizados”, lembra.

 

O professor Marco Antônio Rocha, do Instituto de Economia da Unicamp, afirma que dois anos após o golpe, o poder de compra do salário mínimo caiu pela metade devido à política de indexação salarial defasada pela inflação elevada. Segundo ele, em um ou dois anos, a perda do poder de compra foi de cerca de 50%.

 

Dados do IBGE indicam que a desigualdade também aumentou. Em 1960, os 5% mais ricos concentravam 28% da renda nacional; em 1972, esse percentual saltou para quase 40%.

 

Manutenção do poder e mobilidade social

A permanência das famílias nas camadas altas do poder expõe um cenário de baixa mobilidade social. Segundo a OCDE, uma pessoa nascida pobre no Brasil necessita de nove gerações, cerca de 300 anos, para chegar à classe média. O Brasil, juntamente com Colômbia e África do Sul, apresenta índices de imobilidade social destacados.

 

“Para entender o Brasil, para entender a nossa grande desigualdade social, para entender a violência simbólica, social, política e real, a gente precisa entender essas famílias”, avalia Ricardo Oliveira

 

Caso da família Bueno Vidigal

A análise da manutenção das desigualdades ganha destaque ao investigar a trajetória da família Bueno Vidigal. A escolha desse grupo familiar se baseou em três critérios: influência política e econômica significativa durante a ditadura, atuação em diversos setores – indústria, serviços, sistema financeiro – e presença em múltiplas frentes de apoio ao regime, incluindo financiamento da tortura.

 

No início do século XX, Gastão Vidigal fundou a Cobrasma, indústria de trilhos e trens, e o Banco Mercantil, à época o maior banco privado do país. A Cobrasma foi herdada por Luís Eulálio Bueno Vidigal e, posteriormente, por Luís Eulálio Bueno Vidigal Filho. O Banco Mercantil foi presidido por Gastão Eduardo de Bueno Vidigal até sua morte em 2001, quando o banco foi vendido ao Bradesco.

 

Greve operária e repressão militar

Documentos do Ministério do Trabalho analisados pela historiadora Cláudia Moraes de Souza, da Unifesp, apontam que a Cobrasma oferecia condições de trabalho equiparadas ao trabalho escravo, com ausência de sanitários suficientes, refeitório, materiais de segurança e água potável para os trabalhadores, que precisavam almoçar na calçada, sentados no chão.

 

“Não havia sanitários suficientes para o número de trabalhadores, não havia refeitório, o trabalhador, na hora do almoço, saía para a calçada e almoçava com a marmita no chão. Não havia material de segurança, água filtrada ou pelo menos água, para se beber durante o expediente. Então, questões mínimas, ligadas à higiene e à segurança do trabalhador”, relata a professora.

 

Nesse contexto, ocorreu a greve de Osasco, em 1968, na Cobrasma, considerada um dos principais movimentos operários do período. A ação dos empresários ao solicitar a presença do Exército para reprimir a mobilização ficou registrada.

 

“É na greve que a gente enxerga claramente, os empresários chamando Exército brasileiro para atuar como repressor dentro da fábrica,” ressalta Cláudia.

 

Na repressão, cerca de 400 trabalhadores foram presos. O episódio foi um dos fatores que precederam a publicação do Ato Institucional número 5 (AI-5), cinco meses depois, que determinou o fechamento do Congresso Nacional, cassação de mandatos, censura à imprensa e suspensão do habeas corpus.

 

Estrutura de repressão e financiamento empresarial

A Operação Bandeirantes (Oban), criada meses após o AI-5, foi um dos principais centros de tortura do regime e deu origem aos DOI-CODIs, que funcionaram em dez capitais a partir de 1970.

 

Empresas nacionais e multinacionais financiaram tanto a Oban quanto os DOI-CODIs. Entre os sócios do financiamento estava o Banco Mercantil, controlado por Gastão Eduardo de Bueno Vidigal. Além disso, foi estabelecido um sistema de recompensas para a prisão de opositores, com valores específicos por captura, como relata Ivan Seixas, que foi preso e torturado aos 16 anos com seu pai, Joaquim Seixas.

 

“Fizeram uma parceria com o empresariado para fazer uma caixinha de premiação. Cada um que era capturado tinha um valor a cabeça. O Capitão Carlos Lamarca, quando esteve na minha casa, a cabeça dele valia 750 mil dólares. Um ano depois, quando foi assassinado, valia 1,5 milhão de dólares.”

 

Ivan relata que sua própria prisão foi premiada, recebendo o carcereiro 300 dólares na época. Para ele, esse sistema fortaleceu os setores mais rígidos das Forças Armadas e prolongou o regime militar.

 

A família Bueno Vidigal ainda liderou o Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI), responsável por adaptar indústrias para produção de equipamentos militares. A Cobrasma, nesse contexto, foi acusada de transformar veículos da Polícia Militar em blindados usados na repressão de manifestações.

 

Os empresários recebiam em troca incentivos fiscais, contratos governamentais e empréstimos vultosos. A Cobrasma chegou a faturar cerca de 470 milhões de dólares por ano, com o apoio de bancos estatais como o BNDE (atual BNDES), que liberava recursos com condições privilegiadas durante a repressão, inclusive em operações realizadas dentro de territórios indígenas.

 

Vínculos históricos com a escravidão

Gastão Vidigal, nascido em 1889 em São Paulo, herdou laços familiares do Nordeste e casou-se com Maria Amélia Pontes Bueno, descendente de uma tradicional família paulista, os Buenos. Pesquisa nos jornais do século XIX em Sergipe confirmou que o avô de Gastão Vidigal, Antônio Pedro Vidigal, negociava a compra de pessoas escravizadas em 1853.

 

Em outra publicação, em 1882, no jornal O Libertador, foi noticiada a dificuldade de uma mulher para comprar a liberdade da filha e do neto, que, segundo a legislação, já deveria ter nascido livre. O preço do resgate foi elevado em 33% pelos avaliadores do tribunal, sob argumento de concessão de alforria, sendo um dos avaliadores um membro da família Vidigal.

 

Pelo lado materno, os Buenos também detinham propriedades e pessoas escravizadas. O avô de Maria Amélia, Augusto Xavier Bueno de Andrade, chegou a hipotecar uma fazenda de café em Campinas, incluindo 75 pessoas escravizadas, em empréstimo tomado junto ao Banco do Brasil, segundo a pesquisa "Escravos Hipotecados".

 

Atualmente, o nome Gastão Vidigal denomina ruas, avenidas, travessas, praças, um aeroporto e até uma cidade no interior paulista. Segundo o professor José Marciano Monteiro, da Universidade Federal de Campina Grande, essas denominações não apenas homenageiam pessoas, mas também reforçam memórias e perpetuam o capital simbólico das elites.

 

“As disputas políticas não se dão tão somente entre os vivos. Elas também se dão entre os mortos, quando se disputam as memórias. Isso alimenta o capital simbólico. Imaginemos o que é você chegar em determinado lugar e dizer assim: esta avenida é em homenagem ao meu bisavô. Isto aciona toda uma rede de contatos, de prestígio, de status do ponto de vista do imaginário e, do ponto de vista da representação que é totalmente diferente do sujeito que vai disputar e ele não tem referências”, explica Marciano Monteiro.

 

O professor destaca que, ao contrário do que ocorre com as famílias tradicionais, as memórias dos antepassados das pessoas historicamente escravizadas foram sistematicamente destruídas, inviabilizando referências e dificultando conquistas sociais.

 

Posicionamento da família e empresas atualmente

A Cobrasma encerrou suas atividades em 1998. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, ex-presidente do Banco Mercantil, faleceu em 2001 aos 82 anos, figurando entre os mais ricos do país. O clã voltou ao noticiário em 2019, quando o Banco Paulista, fundado em 1990 por Álvaro Augusto Vidigal, sobrinho de Gastão Vidigal, foi alvo da Operação Lava Jato sob acusação de lavagem de 48 milhões de reais para a Odebrecht.

 

Questionada, a assessoria de imprensa do Banco Paulista declarou apenas que o presidente da instituição, Guti Vidigal, não é herdeiro direto do financiador da OBAN nem possui ligação com a Cobrasma. Também foram enviados questionamentos a Luís Eulálio Vidigal e à direção da Cobrasma sobre os episódios mencionados e a atuação durante a ditadura, bem como sobre o encerramento das atividades industriais após a redemocratização. Não houve resposta para nenhuma das questões.

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